Já ouvi dizer que a Terra é um planeta , “auto limpante”...

Mais uma vez , alguém quis se eximir das responsabilidades.

Mais uma vez , alguém quis que “mamãe” resolvesse os problemas...

O fato é que , nunca mais parou de chover. 

Também , não deu mais pra assistir o noticiário , que também de fato , nunca foi bom.

Difícil acompanhar o sofrimento de pessoas que perderam praticamente tudo o que tinham , na enxurrada...

Enfim , a lama é parte intima do Off Road. E a gente , não é feito de açúcar. Amém!

Show must go on.

Prefiro o “hard-pack” , ou , na pior das hipóteses , um mix de pisos. 

Mas , nos últimos meses , não há nada que se possa fazer.

O jeito é molhar as botas.

Confesso que até gosto , da concentração e antecipação extra , que a pilotagem na lama requer.

Porém , o efeito destes rolês nas partes móveis externas das bikes , é punk. 

Relações , pastilhas , rolamentos , comandos , retentores....

Dia destes , por acaso , pude constatar isso de maneira “clara”.

O horímetro marcava algo como 7 horas e a relação (OEM) , já apresentava claros sinais de desgaste. 

Honestamente , não imaginei que a lama “comece” peças desta qualidade , tão rapidamente.

Troquei relações minha vida inteira , mas confesso , nunca havia parado pra traduzir isto em horas...

Enfim , era sábado e o rolê estava armado.

Um grande amigo , das antigas , iria se deslocar do interior pra capital no findê. Movimento sem lógica no Off Road.

Ligou na terça e estabeleceu:

“Cê que manda. Vamo andá. Diz aí aonde.”

Não tinha como sartar. 

Ia ter que por os pés , naquela bota que nunca mais secou , outra vez.

Passei a semana sem olhar a previsão. Eu já previa...

O sábado chegou. 

Acertei.

Chovia. Chovia forte.

Esse cara , o que veio do interior , gosta de moto. 

Mesmo diante do céu “preto” e da chuva constante , o cara tava curtindo...

Assim sendo , ia tentando me consolar:

“Seu Edu ... , não é um dia ruim. É só um dia chuvoso...”

As palavras faziam todo o sentido , mas , tava difícil de convencer a mim mesmo.

Olhando as bikes novas e limpas pelo retrovisor , até tentei....:

“Cê não tá precisando de uma bota? Vamos pra cidade comprar uns equipos... , comer um filé no Moraes...!”

Por sorte , ele ignorou.

“Toca logo pra esta pista rapaz!”

Sem saída , eu procurava uma razão pra curtir.

Na caçamba , uma KTM SX150. 

Há muito tempo não andava de 2T.

Esta era uma boa razão pra por os equipos molhados!

Mesmo porque , já tava chovendo mesmo...

Como todo e qualquer offroader “VET” , queimei um bocado de óleo 2T na vida.

Duques eram minha escolha. Sempre. 

Sempre , até conhecer esse cara.

Eu o conheci andando de 250 e ele de 125. 

Na sequência , tive outras várias bikes. 

Ele também! Todas 125....!

Sempre me dizia:

“De 125 , ao final do dia , a gente se sente um herói....!!!”

Detalhe: o cara anda na serra e , praticamente , só anda de trilha

Por conta deste “conselho” acabei andando de 125 2T uns três anos... 

Quem teve a oportunidade única de conviver com uma , por algum tempo , conhece bem a realidade.

São maquininhas maravilhosas...!

Na motinho , não existe baixa. 

Só anda “no grito” , motor cheio , nada mais. On/off.

Na minha opinião , uma 125 2T é a melhor escola de pilotagem que existe.

O sujeito tem que olhar pra frente , queira ou não.

Não é bom frear uma 125. Não é bom quebrar a inércia do movimento.

É difícil “fazer” motor numa 125.

Por isso , cabo enrolado , embreagem e foco adiante.

Se chegar ao obstáculo “sem motor” , seja este uma enorme poça , um degrau , ou um salto......

Pensa em algo que começa com FU e acaba com EU. 

Não tem outra palavra mais apropriada...

Todo bom piloto de 125 2T tem calo nos dedos da mão esquerda.

Todo bom piloto de 125 2T, sabe usar a embreagem como se deve.

Todo bom piloto de 125 2T, é bom piloto de qualquer moto.

O rolê seguiu. Molhado.

Escorregadio , com vários trechos muito lisos , “tenso”.

Destes do tipo.... não freie , não faça movimentos “bruscos” , procure algo mais “denso” pra apoiar os pneus e mantenha a inércia.

Aceleramos. Eu de 450 , ele de 150.

Fizemos três baterias de 50min sem conversas , só parando pra tomar água e trocar os óculos.

Uma 450 é um transporte apropriado pra este tipo de situação.

Uma marcha acima e .... : tudo bem.

O negócio traciona muito e nesta condição de marcha , não “espana”.

Se algo der errado e for preciso atravessar um “lago” , basta sentar pra trás , girar o comando rotativo , travar os joelhos e .... , até logo.

O trator fica “em casa” , na lama.

Segunda , terceira , leveza nos comandos , inércia , progressividade.

Vai-se longe e relativamente rápido , numa 450 , nestas condições de piso.

Já na 150.... , no liso , a história e outra , bem diferente. Especialmente numa SX.

Se não acelerar (ou andar uma marcha acima) , ela “engole” na primeira poça ou degrau. 

Se mandar mão , ela “espana” , perde tração.

Se frear , não consegue grip pra retomar a velô na sequência. 

Se não frear..... , deposite sua confiança nas extraordinárias WP e ... torça pra não bater em nada muito duro no mato.

Vantagem?

Uma. É leve.

Muito leve.

Imagina como “põe” uma bicicleta na curva. Imaginou?

É igual.

Imagina como passa uma bicicleta por cima de um tronco. Imaginou?

É muito parecido.

Todo “VET” do Off Road , já experimentou a sensação de trocar , pela primeira vez , uma 125 ou Duque 2T , por uma 450 ou 250 , “F”.

É uma sensação indescritível.... , maravilhosa!

É como se você dormisse sendo quem você é e , acordasse andando como o Bissinho.

Espetáculo!

A transição de uma 2T para uma 4T é como um sonho. 

Infelizmente , esta “mágica” , só acontece uma vez na vida.

Any way , eu estava com saudade. Muita.

Não demorou , propus uma troca de montarias.

KTM´s são KTMS´s..... , são diferentes , “customizadas”. “Maneiras” , como bem diriam os cariocas!

Já de saída , não “achei” o motor...., nem no chão , nem na embreagem.

De fato ele é tão pequeno que o cilindro inteiro , é quase do tamanho do carburador.

Tentei colocar o motor no giro pra sair e , a parada não saiu do lugar.

O chão tava muito liso. 

Muitos RPMs não combinam com chão muito liso.

Lembrei pra que é que servia a tal da embreagem. 

Na primeira session mais cascuda , uma sequência de poças enormes , aliviei pra achar uma “rota” e esqueci de trabalhar no cambio , no giro e na embreagem....

A 450 passa lá em segunda.... Passa lá em terceira.... Passa lá em quarta.... , deve passar até em quinta...! 

Tô mal acostumado. 

A motinho não. Só passa na marcha e na rotação certa.

Na sequência , um trecho de cotovelos muito liso.

Uma pra cima e a parada ficava “chocha” o ritmo diminuía e eu começava a escutar os caras se aproximando.

Uma pra baixo e a cadeira elétrica parecia uma minhoca no asfalto quente.

Me lembrei outra vez: Embreagem!

Mas .... , como é mesmo que usa isso?

Esqueci.

Há anos andando de “F” , acostumei a fazer tudo no controle de aceleração. 

Errado , eu sei. 

Preguiça. Confesso. 

Tem dia que eu praticamente só uso embreagem pra sair , pra acertar a tangencia das curvas de “alta” ou pra por a frente em cima de um degrau ou tronco. Mais nada.

Na minha terra , no carreador , tem muito pouca areia e quase nada de lama bruta. 

Manete de embreagem lá , encalha na prateleira... 

O sonho acabou.

Um amigo , veterano , chegou e deu o recado.

“Sair das 2T pra as 4T é muito bom. Voltar , nem tanto...”

Tá coberto de razão.

Havia me esquecido.

Ao final , encontrei um sentido nisso tudo.

Pense:

É natural que , a partir de um determinado momento , com o passar dos anos , nossa velocidade diminua (diminua mais...).

Quando isso acontecer , vamos ter que lançar mão de alguns “artifícios” pra manter o ritmo.

Quando essa hora checar , meu amigo “Centoevintecincoman” , estará na vantagem. Certamente irá montar numa 250F e “fritar” a concorrência.

Seus dedos da mão esquerda estarão calejados e familiarizados com o trabalho intenso.

Sua referencia do comando rotativo será precisa. Tudo aberto , enrolado , sempre.

Seu olhar estará habituado a focar vinte , trinta metros adiante.

Seu pé direito , “flexível” , de tanto “ajudar” o quase inexistente freio motor.

Enfim , torça pra que as 125 2T nunca mais voltem a ser populares , isto poderia vir a trazer frustração para muitos.

Respeite os caras que sabem andar rápido com uma delas.

Se a sua meta é evoluir , compre uma.

Temos , nos que vivemos esta transição , a sensação de estar andando mais rápido.

Ilusão. 

Mesmo diante dos incontáveis sábados , nossa evolução foi modesta , se comparada à evolução de nossos equipamentos.

A diferença , a evolução , talvez esteja mais neles do que em nós.

Peça uma 125 2T emprestada e vá entender o porque...

Como diriam os caras do Van Halen : “Dream another dream... This dream is over...!”

Texto de Eduardo Aiello